ARTIGO – O fracasso da meritocracia

0 107
image_pdfimage_print

 

 

O fracasso da meritocracia

 

Artigo_GZH_news

 

Quem merece o quê? Em um mundo cada vez mais desigual, a resposta a essa questão deve ser problematizada, indica professor da UFRGS

Por Luiz Marques
Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul. Artigo publicado no portal GZH

 
Por décadas, se atribuiu o desgaste das democracias constitucionais aos malfeitos da representação política e à incapacidade de elevar os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). A novidade do livro de Michael Sandel, A Tirania do Mérito: o que Aconteceu com o Bem Comum?, está em responsabilizar a meritocracia pela erosão das expectativas acerca dos regimes democráticos. O aprofundamento do fosso na distribuição de renda de 1% versus 99% da população, na metáfora do movimento Occupy Wall Street, mergulhou em descrédito as promessas de repartição das riquezas. Pior: a narrativa meritocrática nutriu a arrogância dos “vencedores” e a humilhação dos “perdedores”. A ideia de que o fracasso advém da apatia ou da incompetência empurrou as discórdias sociais para o ressentimento. “Quatro décadas de globalização favorável ao mercado esvaziaram o discurso público, tirou o poder dos cidadãos”, escreve o professor de Filosofia Política, em Harvard.

O resultado é um sistema que expande e naturaliza a mercantilização, como se tudo fosse mercadoria à venda para quem pode possuí-las pelo preço contratado. Ao indagar em sala de aula o que os alunos achavam do adolescente que vendera um rim para adquirir um iPhone, Sandel destacou três correntes de opiniões: A) se não houve coação, o jovem exercitou o direito de escolha; B) é injusto prolongar a vida comprando órgãos do corpo de pobres e; C) quem dispõe de recursos para conquistar mais saúde merece viver mais tempo. A última assertiva ecoa a mentalidade meritopata, em regozijo pela ausência de limites morais no mercado. A ilusão de que o destino das pessoas reflete o que merecem está arraigada nas instituições ocidentais, em especial, no evangelho da prosperidade.

Por outro lado, a máxima neoliberal formulada por Margaret Thatcher de que “a sociedade não existe, o que existe são os indivíduos e as famílias” coloca peso grande na responsabilidade pessoal pelos resultados auferidos. Nas Olimpíadas de Tóquio, após uma bela performance artística, a ginasta brasileira Rebeca Andrade foi interrogada sobre “o que faltou para alcançar o ouro”. Com altivez e orgulho, respondeu: “Nada saiu errado, estou contente com o meu desempenho”. A menina afrodescendente, que ostentava para o país a inédita medalha de prata na categoria, desautorizou de pronto a visão reducionista que dividia a competição (e o mundo) entre winners e losers.

O curioso é que a ideologia do merecimento surgiu para fazer da educação a ponte de passagem até uma “sociedade sem classes”. Procurava selecionar talentos, independente das origens sociais, com exames de admissão à universidade para medir o Quociente de Inteligência (QI) dos vestibulandos. Não funcionou. Em regra, os selecionados pertenciam a berços dourados. As condições de nascimento se mostraram decisivas. Cotas afirmativas étnico-raciais para o ingresso no Ensino Superior atuam melhor contra as desigualdades. Na Idade Média, a noção de mérito era associada à salvação com a aquisição de indulgências pelos pecadores ricos, em busca de um lugar no céu. Na Idade Contemporânea, evoca os indecorosos multimilionários que viajam ao espaço sideral, sem empatia com os que sofrem na Terra. A liberdade hiperindividualista, oferecida pela meritocracia, ignora as obrigações cívicas e o papel do Estado na construção de projetos que contemplem “todes”.

Há esperança, porém. Conforme revelam pesquisas no Brasil e nos Estados Unidos, a felicidade pela qual a juventude se mobiliza pressupõe o acesso à subsistência digna e à cultura geral, numa comunidade que assegure o efetivo reconhecimento pelo que somos. O darwinismo socioeconômico, na corrida por um consumo de elite com ações na Bolsa de Valores e férias de luxo em uma mansão nas Bahamas, não dialoga com as aspirações das novas gerações. “De cada qual segundo sua capacidade; a cada qual segundo suas necessidades”, eis o que traduz os solidários ideais de vida perseguidos pelos jovens, hoje.

A democracia requer convivialidade plural em ambientes compartilhados por distintos níveis sociais e estilos de existência, que permitam o desenvolvimento coletivo de manifestações civilizacionais para além da tradição colonialista (racista) e patriarcal (sexista).

É preciso combater as iniquidades que ocultam privilégios antirrepublicanos, sob o pretexto supremacista do mérito. Quando o conjunto da cidadania discute e delibera sobre os fins da sociedade, confere sentido prático ao conceito de bem comum para apaziguar os conflitos. Assim, “aprendemos a negociar e acatar as nossas diferenças, na direção de uma vida pública menos rancorosa e mais generosa”, apregoa Sandel. Oxalá.

 

 

Artigo publicado no portal GZH em 16/04/2022. Link em https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/noticia/2022/04/luiz-marques-o-fracasso-da-meritocracia-cl1we868f004r017cqx7z92rr.html

sindppd

Ver todos os artigos de sindppd

Similar articles

A seção de comentários no site do Sindppd/RS quer incentivar o debate entre os trabalhadores de TI e o sindicato. Também é um canal de denúncias e informações. Portanto, NÃO SERÃO publicados comentários pornográficos, ofensivos a pessoas ou entidades e nem discriminatórios (racistas, homofóbicos, de gênero ou de classe); que contenham publicidade ou palavras de baixo calão; e nem comentários que façam afirmações caluniosas ou difamatórias, sem terem provas sobre o que está sendo dito. SOMENTE serão publicados comentários com endereços de emails válidos, os quais não serão divulgados.

Faça um comentário

Seu email não será publicado. *

Visite-nos

Rua Washington Luiz, 186 - Bairro Centro - Porto Alegre - RS - CEP 90010-460

Telefones do Sindppd/RS:
Geral - (0xx51) 3213-6100
Secretaria - (0xx51) 3213-6121/ 3213-6122
Tesouraria - (0xx51) 3213-6117

E-mail: secretariageral@sindppd-rs.org.br